Projeto Phoenix: uma aula sobre priorização
Mar 18, 2026 - ⧖ 5 minRecentemente terminei de ler "O Projeto Phoenix", e essa leitura foi muito produtiva não só em conhecimento, mas o ponto mais significativo para mim foi o reconhecimento de padrões dentro do livro que vemos muitas vezes aqui fora. Nós (pessoas técnicas) temos a ingenuidade de supor que as pessoas que estão em cadeiras de nível C tenham o conhecimento das relações e consequências de como ações não planejadas e tomadas sem pragmatismo podem ser negativas para o ambiente de trabalho e para o negócio como um todo.
Neste texto, gostaria de levantar três pontos que são muito comuns de vivenciar em nossas profissões e que são, muitas vezes, danosos para todo o negócio.
O herói - O culto a uma entidade xamânica dentro da empresa
O livro gira em torno das ações de Brent. Todos nós já conhecemos um Brent: eles são meio reclusos, vivem com reuniões sobrepostas e estão sempre entrando atrasado em algum compromisso, com cara de cansaço e, normalmente, de mau humor. É necessário entender que o heroísmo em equipes só pode ser aceito de forma pontual. Se você precisa de um herói que está sempre sobrecarregado, negligenciando a vida pessoal e com alto índice de retrabalho, seu processo está quebrado.
Para termos um ambiente produtivo, a metodologia importa mais do que o porquê de tomarmos certas ações. Ações isoladas levam a resultados dispersos. Brent estava sempre atendendo demandas de retrabalho ou sem direcionamento previsto pela sua liderança; tomava ações por conta própria por pressão de "carteirada" e virava o gargalo técnico para todo o seu time. A financeirização da economia e o uso extensivo de tecnologias provaram que ambientes de tecnologia são, hoje, motores de ação e não apenas apoio às áreas de negócio. Um trabalho ordenado e em conformidade com as metas de curto, médio e longo prazo da organização é imprescindível e deve ser a prioridade máxima em toda ação executada pelo time.
Brent agia assim porque não havia um consenso claro sobre quais eram os objetivos da TI alinhados aos negócios e ele, por ser a parte executante do sistema, muitas vezes tomava as decisões que deveriam ter sido da liderança. Aliás, vamos falar de planejamento estratégico?
Cadeiras de nível C e o todo
Como identificar uma empresa que é bem-sucedida? Hoje isso já é senso comum, mas já ouviu falar que o óbvio precisa ser dito?
Sim, é preciso dizer que as decisões de planejamento estratégico precisam estar alinhadas aos objetivos da tecnologia para que a empresa consiga entregar com qualidade e consistência. Muitas empresas cometem o erro de criar "ilhas", e a área de tecnologia é especialista nisso. É uma profissão que não precisa de muito para gerar novos problemas e ficar em um loop de retroalimentação infinito, devido à natureza humana e como lidamos com processos tecnológicos determinísticos. Tomamos ações baseadas em critérios momentâneos que não coincidem com a direção correta e, por isso, toda empresa que utiliza tecnologias precisa ter a estratégia bem alinhada com a execução. Se houver desalinhamento, a TI passará a ser vista como inimiga e burocrática.
Isso não ocorre apenas por um eventual pedantismo de nossa parte , embora a tendência ao pedantismo seja um problema real entre desenvolvedores e profissionais de governança. O problema central é que, sem direção, o setor de tecnologia será o bode expiatório onde a gestão deposita a culpa de sua própria falta de planejamento.
Saber o que se sabe é bom, saber o que não se sabe é melhor ainda
Identifique padrões e tenha contato com diversas áreas do negócio. Não se isole em uma ilha com um "rei na barriga" só porque você usa nvim (eu estou escrevendo isso no meu nvim). As pessoas de negócio serão seus melhores aliados e trarão muito mais insights sobre como você deve realizar seu trabalho do que qualquer otimização técnica isolada. Apesar de ser um grande admirador de momentos de silêncio e introspecção, conversar e saber com quem falar sobre os problemas da empresa é uma das habilidades mais importantes para um profissional de tecnologia, e para qualquer profissional cuja principal função é resolver problemas. No fim do dia, somos facilitadores. Em algumas empresas de produto, somos os protagonistas, mas não é assim na maioria dos casos. É preciso descer do pedestal, ser humilde e entender que em muitas empresas somos o suporte: não subimos no palco para receber aplausos, mas para lidar com o constrangimento de quando algo falha, resolvendo o problema e garantindo que não ocorra novamente. É preciso ter consciência de que somos animais sociais e todas as nossas relações e modelos mentais são desenhados para o compartilhamento e colaboração entre pares.
O livro é excelente ao trazer situações onde ignoramos o impacto que ações mal planejadas têm em nossos dias, relações e saúde. Ele deixa claro que para ter sucesso é necessário planejamento organizacional. Não existem "ninjas" que resolvem tudo sem deixar rastros e todos os heróis deixam rastros (e dívidas técnicas). É fundamental substituir o heroísmo individual por um ambiente de apoio mútuo, e isso se expande para squads, setores, empresas e comunidades.